Mundo | Iraque revive cenas da 2ª Guerra Mundial

"Este é o destino dos xiitas que Nouri al-Maliki mandou combater os sunitas"./ Fonte: AFP/Getty Images.

“Este é o destino dos xiitas que Nouri al-Maliki mandou combater os sunitas”./ Fonte: AFP/Getty Images.

Enquanto o mundo ocupa-se com o breve patriotismo desportivo, em Bagdá, militantes do Estado Islâmico do Iraque e da Síria – ISIS – anunciam ter matado 1.700 soldados do governo iraquiano. Embora não tenha sido confirmada a atrocidade, alguns registros fotográficos foram divulgados através do Twitter e imediatamente comentados pela imprensa internacional: El País Brasil, Observador, BBC.

A conta que divulgou as imagens estaria ligada aos “jihadistas”. Segundo este grupo, os soldados executados seriam desertores do exército iraquiano, porém a imprensa internacional anuncia como sendo militares rendidos ao “rápido avanço das forças do ISIS” (BBC, Observador). A província de Salahuddin – ao norte de Bagdá – teria sido o local do extermínio.

Cem anos após o início da Primeira Guerra Mundial (figuras 07 e 08), o mundo globalizado rende-se à interligação caótica da inteligência coletiva advinda através da Internet. As sequências fotográficas apresentadas pelos jihadistas denunciam, para além dos soldados conduzidos ao “campo de morte”, uma chacina fria e brutal (figuras 01, 05 e 06).

Através da memória coletiva, resgatamos extermínios passados, como os ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial (figuras 04, 09 e 10). As fotografias circulam pelos novos media por meio de um ideal mobilizador valorizado pela Inteligência Coletiva, defendida pelo filósofo Pierre Lévy. Esta inteligência coletiva está no resgate das informações, na imaginação, na troca de experiências e conhecimentos, na partilha da memória e na organização da informação em tempo real.

BRUNAGRASSI 1

Auschwitz (2014), foto Bruna Grassi – figura 02

DSC_9945 pb

Auschwitz (2014), foto Bruna Grassi – figura 03

Nesta imagem (figura 04), judeus feitos prisioneiros seguem pelos corredores de arame farpado rumo às celas de extermínios.

polonia

Auschwitz, 1940-1945 (fotógrafo desconhecido) – figura 04

Mais sobre Auschwitz, Polônia.

Nas imagens 05 e 06, supostos soldados iraquianos rendidos em fila rumo ao campo aberto onde seriam executados à morte.

1402835619_123214_1402836103_album_normal

Extermínio de 1.700 soldados do governo iraquiano. foto divulgação (não confirmada) por jihadistas pelo Twitter – figura 05

 

Mideast Iraq

Extermínio de 1.700 soldados do governo iraquiano. foto divulgação (não confirmada) por jihadistas pelo Twitter – figura 06

Durante a Primeira Guerra Mundial, registros fotográficos apontavam para uma guerra estática, cujos retratos afastavam movimentos e violências. Tais características desdobravam-se pelos limites técnicos dos equipamentos fotográficos. Já na Segunda Guerra Mundial, equipamentos fotográficos mais leves e práticos aproximaram os registros do que seria a realidade da guerra. Cenas de conflito, chacinas, dentre outras, foram marcadas pelo tempo-histórico e hoje facilmente são resgatadas pelo acesso ao ciberespaço.

Australian troops in the Turkish Lone trenches

Tropas Australianas nas Trincheiras, Primeira Guerra Mundial (1915, by Australian War Museum) – figura 07

number

Cenas da Primeira Guerra Mundial (1915, by Australian War Museum) – figura 08

Mais sobre o Australian War Museum.

Cenas da Segunda Guerra Mundial (fotógrafo desconhecido) – figura 09

2gm 1

Segunda Guerra Mundial (fotógrafo desconhecido) – figura 10

iraq war

Guerra Iraque, 2005 (fotógrafo desconhecido) – figura 11

 A visualidade da guerra permanece existente nos registros divulgados pelos jihadistas. Não obstante, segundo o alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, não foi a primeira vez que os militantes do ISIS cometeram execuções em massa. Apontando para as legendas acrescidas às fotografias divulgadas, as vítimas seriam xiitas: “-este é o destino dos xiitas que Nouri al-Maliki [primeiro ministro iraquiano] mandou combater os sunitas”.

A confirmação da chacina evocaria a memória das represálias entre xiitas e sunitas ocorridas na Guerra do Iraque de 2005-2007 (figura 11). Para Erin Evens, pesquisadora da Human Rights Watch (Iraque), confirmar a veracidade dos registros fotográficos sendo compatíveis com a publicação no perfil do ISIS no Twitter seria “incitar mais guerra”.

Sempre que uma imagem é resgatada como referência de um tempo-histórico, a experiência vivenciada também é evocada. Compreender a fotografia como linguagem é dar sentido aos seus elementos em relação à simbologia aparente representada. Destacar os elementos materiais da linguagem em questão, no caso a fotografia, é promover os seus significados. Assim, quando olhamos para as imagens divulgadas pelos jihadistas imediatamente associamos seus elementos visuais (composição, enquadramento, personalidades, representações materiais tais como armas, ações austeras  e de soberania, dentre outras) às cenas já conhecidas de brutalidade plena, nomeadas cenas de guerra. Aqui, o passado é evocado pelos elementos de brutalidade nas imagens da violência e da guerra.

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s