Na teia da emigração

Mural de Banksy em Southampton, Inglaterra. Foto: Banksy/Divulgação

Remotos estão os anos dos descobrimentos e da ditadura, mas nem por isso a precariedade. Os jovens de então e os de agora encontram-se na mesma situação: obrigados a deixar para trás o seu país e a sua família em prol de uma vida melhor. Hoje, é a mesma que um estado de direito, exatamente aquele que Immanuel Kant começou por teorizar, é moralmente obrigado a proporcionar aos seus cidadãos, contando sempre com a prevalência dos direitos fundamentais. Todavia, o oposto têm-se verificado. Cada vez mais jovens qualificados (e não só) partem em direção ao incerto, com uma mala cheia de esperanças, as que foram roubadas pela pátria.

Comecemos pelo princípio. O fenómeno da emigração em Portugal remota ao século quinze, aquando da colonização da Madeira e posteriormente como consequência da expansão da empresa dos descobrimentos. No entanto, foi depois da independência do Brasil (1822) que a emigração portuguesa tomou proporções, qualitativa e quantitativa, novas. O Brasil torna-se então o destino de eleição dos portugueses, até ao final do século dezanove, quando se anuncia a procura de alternativas, quer dentro da Europa, quer fora da Europa, e os lusitanos começam a distribuir-se pelos Estados Unidos, Canadá, Venezuela, Argentina e Austrália. Mais uma vez, nos anos 50, os portugueses procuram alternativas e começam a dispersar-se, desta feita, para a Europa: França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Suíça, abalando toda a sociedade portuguesa, tendo em conta a magnitude do surto de emigração. Em menos de 10 anos a França já era o país de destino de mais de um milhão de portugueses.

Hoje, Portugal volta a enfrentar o duro destino da emigração. Pais veem partir os filhos, a quem pagaram propinas durante cinco anos, na esperança de terem um emprego garantido no final do ciclo de estudos. Filhos deixam os pais para trás, na esperança de um dia poderem retribuir o esforço. Um novo fenómeno que faz capaz de jornais, ocupa lugar nas grandes reportagens dos canais de televisão e leva o nome de Portugal ao estrangeiro, para o bem e para o mal. Forma-se uma nova e poderosa teia de emigração. Os jovens que saem do país são cada vez mais qualificados, levam o canudo na bagagem e uma mão cheia de esperança. Esperam um dia voltar.

Joana Isabel Carreto tem 21 anos, trabalha numa escola em Lille, como Assistente de Língua Portuguesa e, apesar de não estar em terras gaulesas porque não conseguiu emprego na área de formação – Comunicação –, sente que o país não está a corresponder às expetativas dos seus jovens: “as únicas oportunidades de encontrar trabalho se resumem a estágios não-remunerados, o que me revolta e me faz sentir que não vale a pena o esforço que um estudante português faz, porque quando termina os seus estudos percebe que ganhará mais dinheiro a trabalhar no McDonald’s do que a trabalhar na área para a qual estudou”. No entanto, para a jovem de Bragança a mudança não foi difícil, sempre quis viver no estrangeiro, num ambiente multicultural, conhecer novas culturas e aprender novas línguas.

Contudo, nem todos os jovens que emigram deixam Portugal com o espírito de conhecer um novo mundo, mas sim obrigados quando se deparam com as circunstâncias críticas do desemprego. Fábio Leite relata que o principal motivo que o levou a rumar a França foi a concretização dos seus objetivos de vida “não impossíveis de os realizar em Portugal, porém mais fáceis noutro país, tais como comprar casa e construir família, porque em Portugal é difícil com os ordenados que se recebe”. O jovem conimbricense de 25 anos, Técnico de Informática, vive em Nice com a namorada e lamenta o mercado de trabalho português, “os postos de trabalho são reduzidos e depois condicionados com a falta de experiência e idade, mesmo para pessoas formadas.”

Afinal o que têm em comum estes, e muitos outros, jovens? Para o Estado são apenas números. Em 2012, 121.418 portugueses, entre os quais 42.171 jovens, com idades compreendidas entre os 20 e os 29 anos (dados do Instituto Nacional de Estatística – emigrantes permanentes e emigrantes temporários), deixaram família e amigos para trás. Repletos de um sentimento de revolta e profunda tristeza, quando perceberam que o país não era capaz de lhes dar condições dignas de trabalho, e muitas vezes não lhes dar condições de todo. Ponto. Acumulam estágios, empregos em part-time, experiência profissional. Mas nada lhes serve. Resta apenas a audácia para deixar tudo para trás e começar de novo, num sítio melhor, que corresponda às suas expetativas. Muitos aceitam até um emprego num supermercado, cá nem essa oportunidade tiveram.

Para o ano de 2013, e apesar da falta de dados oficiais do governo, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas estima que possam ter abandonado o país entre 100 a 120 mil portugueses, um número semelhante ao do ano anterior. Na verdade, o fluxo de emigração registado na última década já iguala o êxodo emigratório dos anos 60 do século passado.

Dados oficiais da Divisão de População do Departamento de Assuntos Económicos e Sociais (DESA) das Nações Unidas, apontam que em 2013 viviam em França 644.206 portugueses, tornando-se assim a maior comunidade de emigrantes no estrangeiro. Em segundo lugar aparece a Suíça, que acolhia 202.745 portugueses no mesmo ano. Seguem-se por ordem decrescente, no documento publicado pelas Nações Unidas, os Estados Unidos da América, Canadá, Brasil, Espanha, Alemanha, Reino Unido, Luxemburgo, África do Sul, entre outros destinos, dispersados pelos quatro cantos do mundo.

O desemprego continua a ser a principal causa de emigração. Foto: Nuno Ferreira Santos

Quando, em 2013, Diogo Godinho decidiu fazer as malas e embarcar numa nova aventura que o levou até Londres, levava na bagagem, além do Mestrado em Arquitetura, a vontade de “mudar, sair da caixa e ter uma visão diferente”. O jovem da Mealhada não duvida que o país atravessa uma crise profunda, não só económica, mas também de valores e quem cria esses valores “são as pessoas, desde o empregado, ao desempregado e ao empregador, passando pelos políticos. Criou-se uma cultura do tudo está mal (…) os jovens tem um papel importante na sociedade e o facto de não terem oportunidades de trabalho na sua área não pode ser e não é desculpa para tudo”. Decidiu, mais uma vez, abrir a porta ao conhecimento e frequenta, aos 27 anos, um Master of Business Administration (MBA).

Reiterando a ideia de que é essencial lutar pelo emprego, o arquiteto apela à sua geração para que não se acomode, para que saía do país e viva diferentes experiências, “em vez de ficarem sentados no sofá a lamentarem-se pelo emprego que não têm, pela situação que não criaram, mas que é a realidade. E é com a realidade que se tem de viver”.

Joana acredita que a onda de emigração jovem que se tem registado é apenas o “reflexo da enorme frustração dos jovens portugueses”. Um problema verdadeiramente alarmante cresce à medida que crescem também as teias da emigração: a “fuga de cérebros”. Afinal é a geração mais qualificada de sempre que está a abandonar o país e é a geração mais qualificada de sempre que o país está a abandonar. No entanto, nem todos perdem a esperança, e Diogo acredita que “o facto de esta geração sair do país agora, não significa que não voltem. E quando voltarem, certamente que vão voltar com vontade de mudar o rumo das coisas”.

Políticos, banqueiros e empresários não lhes deram uma oportunidade, ainda assim, alguns têm a esperança de voltar, regressar à ocidental praia Lusitana, que Camões vigorosamente aclamava. Fábio quer voltar, quando terminar de pagar a casa. Joana, para já, não tem qualquer intenção de regressar a Portugal. Diogo também pensa em voltar, um dia.

Publicado originalmente na Revista Via Latina, número 11 Redes, em março de 2014.

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