Literatura | O mês que passou muito devagar

Depois da morte de grandes nomes da literatura brasileira, o Media4Freedom traz uma crônica da escritora Leila Krüger para lembrar a obra destes mestres.

O Brasil perdeu, no mês de julho, quatro de seus grandes pilares literários, um Quarteto de artesãos das palavras que, repentinamente, nos deixou apenas com a lembrança de seus escritos – felizmente, eternizados.

Logo no começo do mês, dia 3, foi embora sorrateiro o jornalista, poeta e crítico literário Ivan Junqueira, carioca, proeminente artista e analista da arte. Membro da Academia Brasileira de Letras, faleceu aos 79 anos em sua cidade natal, o berço do Cristo Redentor. Eu, como escritora, tive a felicidade deslavada – não há outra expressão – de receber desse mestre uma linda carta em referência ao meu livro A Queda da Bastilha, de poemas, o qual eu lhe havia enviado, e comentou auspiciosamente também minha jornada na ficção – através do romance Reencontro. No final, assinou “seu Ivan Junqueira”, pois então digo adeus ao “meu”, ao nosso grande poeta e visionário que deixa uma lacuna na literatura brasileira.

Mas a brincadeira de mau gosto não parou por aí. Então foi a vez de João Ubaldo Ribeiro, jornalista, roteirista, professor e, é claro, brilhante escritor, vencedor de inúmeros prêmios e membro também da Academia Brasileira de Letras. Baiano de Itaparica, deixou nosso mundo, a exemplo de Ivan Junqueira, na cidade mais poética do Brasil – o Rio de Janeiro. Tornou-se anjo no dia 18 de julho, após vários escritos adaptados para televisão e cinema e traduzidos em outros idiomas, voou carregando o Prêmio Camões de 2008, o maior prêmio da literatura para autores de língua portuguesa. Foram-lhe dados 73 anos na Terra.

E quando ainda chorávamos a despedida obviamente injusta de João Ubaldo, eis que os Céus chamam ninguém menos que Rubem Alves. Era 19 de julho, Campinas, São Paulo. Este, em mim, legou especial tristeza ao partir, pois em tudo o que dele li e ouvi enxerguei um coração belo, puro e que não deveria nunca ter parado de bater, mas, se assim foi, por sorte a alma é imortal e essa passeia dançante pelas mensagens – em mais de 120 títulos – que nos deu com bondade esse psicanalista, teólogo, educador, filósofo e, acima de tudo, escritor, e mais, desbravador dos recônditos humanos e até sobre-humanos. Foi pródigo na Teologia, mas ainda mais na compreensão da Humanidade. Tinha 80 anos quando demitido da vida.

Mas ainda não havia acabado, e no dia 23 de julho – que acabasse logo o mês de julho! – foi levado, inaceitavelmente, um homem chamado Ariano Suassuna, escritor – e poeta, romancista e ensaísta – e dramaturgo de quem uma das grandes obras é “O Auto da Compadecida”, que foi adaptado para as telas. Membro da Academia Brasileira de Letras, era provavelmente o que com maior maestria, entre os vivos, versava sobre o Sertão e o Nordeste. Nasceu em João Pessoa, libertou-se do plano visível em Recife, 85 anos de idade, vida longa na ponta da caneta, da pena, do lápis, na ponta da língua que tanto nos revelaram sobre o existir e o ser brasileiro.

Aos 28 de julho, só esperávamos que julho acabasse rápido e levasse consigo essas despedidas, sempre cedo demais, que deixarão saudade em quem aprecia a literatura e a vida. Almejo que, ao menos, haja uma Bienal do Livro lá em cima. Ninguém se arrependeria.

Sobre a autora: Leila Krüger é escritora, autora do romance “Reencontro” – Novo Século, “A Queda da Batilha” – Confraria do Vento.  Acompanhe seu trabalho no site da autora.

Facebook: https://www.facebook.com/leilagikruger

Blog: www.leilakruger.blogspot.com.br

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Uma resposta para “Literatura | O mês que passou muito devagar

  1. “por sorte a alma é imortal e essa passeia dançante pelas mensagens – em mais de 120 títulos”.
    é, julho foi triste mesmo.

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