Uma visão oriental: A China e Portugal

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Acostumada com as tradições e realidades chinesas, Cris foi viver na Europa, onde encontrou um mundo cheio de contrastes em relação ao seu país./ Foto: Autor Desconhecido

Cris Yin é chinesa e, desde 2012, vive em Portugal, onde termina o mestrado em Comunicação e Jornalismo. Com uma visão cosmopolita,  de quem já viveu em outros países e na grande Pequim, na China, neste texto publicado originalmente na revista Rua Larga ela nos conta como é viver na Europa, especificamente em Portugal.

Quando cheguei a Portugal em Outubro de 2012, estava cheia de excitação. Embora já tivesse viajado por vários continentes, era a primeira vez que ia conhecer a Europa, e que ficaria nesta terra mais ocidental desse continente. Havia algum tempo que falava português, estava muito curiosa em visitar Portugal. Esta foi a viagem mais complicada que eu fiz, desde Liaoning (a minha terra natal), passando por Pequim, Roma, Lisboa até Coimbra, o que, no total, demorou mais de 40 horas, atravessando uma distância de 10,172 quilómetros e uma diferença de 8 horas.

Tudo era novo e distinto. As diferenças estavam no ar, no sol, em todos os detalhes do dia-a-dia. O primeiro choque para mim foi a pouca população do país. Vivi seis anos na cidade de Pequim, a capital da China, que possui uma população duas vezes maior que Portugal. Estava habituada a ver multidão quase em todo o lugar e a todo o tempo. Para os portugueses deve ser difícil imaginar uma concentração tal de gente e para mim, ao contrário, também foi muito estranho ficar numa cidade pequena.

Multidão! O dia-a-dia chinês, nas grandes cidades, muito diferente do que Cris encontrou em Portugal./ Foto: Autor Desconhecido

A multidão do dia-a-dia chinês| O dia-a-dia em Portugal não tem nada a ver com o que Cris estava acostumada na China./ Foto: Autor Desconhecido

 

Comparando com Pequim, as pessoas de Coimbra vivem uma vida relativamente lenta e de menos pressão. Isto tem a ver com o macro-ambiente da economia e da sociedade: a China está numa fase de desenvolvimento rápido em todos aspectos. No início da Fundação da República em 1949, sofremos muitos anos de carência ao nível económico e material e uma imensa repressão da liberdade espiritual. Desde a abertura e a reforma económica de 1978, a China tem tido mudanças enormes, até hoje, são mais de 40 anos de crescimento económico a um ritmo rápido. Hoje em dia, nas maiores cidades da China, como Pequim, Xangai e Cantão, estão sempre a crescer edifícios novos e estradas largas; na ânsia de manter um crescimento económico (que não passa do papel) quase não se vê nenhum prédio de menos de 10 pisos, ou de mais de 10 anos.

Nascida na década de 1980, testemunhei todo este processo, no início vivia com os meus pais num só quarto sem cozinha e sem casa de banho e hoje temos um apartamento de 150 m², com 2 televisores, 2 computadores, todos os electrodomésticos, mobília, enfim, a casa cheia. Para a maioria dos chineses, o que é bom tem de ser novo e grande. Toda a república tem estado sob construção e renovação contínua. Isto explica perfeitamente porque quando cheguei a Portugal, senti que o país não se parecia nada com o que imaginava ser a Europa. Aqui tudo parecia velho e antigo.

O foco da vida da maioria dos chineses reside em ter uma vida mais confortável e mais sucesso, o que significa, para muitos dos que vivem na cidade, ter um apartamento e um carro, bem como os últimos gadgets e roupas da moda. Como nas zonas rurais não existem infraestruturas suficientes, assiste-se a um movimento constante de pessoas para as zonas urbanas. Ao contrário, a situação de Portugal é muito diferente, pois neste momento, está a viver uma crise económica o que para mim é um enorme contraste. Todavia, isto não é uma perda de esperança. Pelo que vejo, é um período de recuperar, de repensar a sociedade e a forma de vida. Coimbra, sendo uma cidade universitária, também é um centro de actividades e eventos culturais, uma terra de novos pensamentos. Considero que na China se deveria recuperar a importância dada ao conhecimento e à cultura. No entanto, a cultura está mergulhada na vida cotidiana.

Por outro lado encontrei semelhanças na forma como agem os Europeus e os asiáticos comparativamente com pessoas de outros continentes, pois as pessoas tratam-se com maior cortesia e são mais ponderadas no que falam e na forma como falam: quando andamos com uma história longa nas costas, caminhamos com menos rapidez e com mais firmeza.

Quer sejam os chineses, quer sejam os japoneses ou coreanos, agem sempre com a prudência e a humildade tipicamente asiáticas. Assim, parecemos mais calmos e mais tímidos.

Para além da sua gastronomia e do enquadramento ao nível dos negócios, infelizmente, a China não é conhecida pelo mundo ocidental. Considero que este desconhecimento se deve, por um lado à dificuldade da língua, por outro ao facto da comunidade chinesa ser pouco permeável ao exterior, sendo que o bloqueio da informação e a censura rigorosa dos discursos nos meios de telecomunicação, tanto tradicionais como modernos, i.e. a televisão, o rádio, até a internet, obstruem gravemente o processo. Considero que a possibilidade de haver mais liberdade nos meios informáticos e de telecomunicação é um passo indispensável no progresso da integração internacional e para que a China possa ser conhecida melhor pelo todo o mundo em todas as suas dimensões.

Usamos pauzinhos em vez de garfo e faca, tomamos banhos à noite em vez de manhã, bebemos chá em vez de café, apertamos as mãos em vez de abraçarmos ou beijarmos. É sempre interessante comparar as diferenças, percebendo que nos vivemos num mundo de várias maneiras e várias possibilidades. Sendo talvez a única chinesa que os meus amigos portugueses conhecem, sinto um grande prazer e orgulho em dar-lhes a conhecer o meu país e cultura. Às vezes também é muito engraçado, que alguns deles até me perguntem com curiosidade, “Sabes fazer Sushi?” ou “É verdade que todos vocês praticam Kongfu?” Fazem-me rir, e respondo: Sushi é do Japão e nem todos chineses são Bruce-Lees ou Jackie-Chans.

Contudo, ao longo do tempo que passei em Portugal, encontrei, cada vez mais, semelhanças nas duas culturas: mesmo sendo de raças diferentes, acreditamos numa mesma humanidade, temos valores comuns como o amor, a compaixão, o cuidado com a família e os amigos, a busca de felicidade e de progresso. Temos os mesmos sentimentos de alegria e tristeza. Como nós, chineses, costumamos dizer: “mesmo que nos afastemos milhares de quilómetros uns dos outros, olhamos para a mesma lua de noite”.

Cris Yin é formada em Língua Portuguesa e atualmente conclui o mestrado em Comunicação e Jornalismo na Universidade de Coimbra, em Portugal. Cris já trabalhou em outros países lusófonos, como a Angola e o Brasil. Para entrar em contato com ela, escreva para crisyin@gmail.com.

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