Ucrânia: bipolaridades de um país em guerra

Quase diariamente tem vindo a ser noticiado o conflito no leste da Ucrânia e, mesmo assim, para uma grande parte dos consumidores de notícias (e, infelizmente, até para os seus produtores) o país parece estar noutra esfera, a não-europeia, apesar do país se concentrar dentro das fronteiras europeias.

Chegam-nos os retratos de guerra através das agências noticiosas, os jornalistas limitam-se a citar fontes a partir da secretaria e o país passa a ser aquilo que lemos, vemos e ouvimos. Nos media é veiculada a ideia de um país atrasado e estagnado no tempo, cobiçado pela Rússia e uma marioneta na mão de oligarcas que domina(va)m o governo. Mas não é a Ucrânia mais do que um país em guerra? É.

A Ucrânia, que viveu durante toda a sua história divida entre duas realidades, e que apenas ganhou a sua verdadeira independência com a queda da União Soviética, continua a ser um país divido. Em causa estão questões linguísticas, religiosas e étnicas que levaram à criação de diferentes culturas políticas e identidades que hoje se encontram combinadas num só Estado. Realidades plasmadas na forma de estar, de se relacionar e até na forma de falar.

Uma fugaz visita à cidade de Lviv, a oeste e a cerca de duas horas da Polónia, foi suficiente para entender que a Ucrânia é muito mais do que isso, do que um país selvagem, lá nos confins da Europa, em guerra. Apesar do discurso veiculado nos media não faltar à verdade, há muito mais: há cultura, há tradições e há toda uma identidade regional, que podemos absorver e que não é partilhada com o mundo. E há também vontade, vontade de mudar o rumo do país e das suas políticas económicas e sociais.

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Teatro da Ópera e Ballet de Lviv. // Foto: Celine Braga

Nas ruas de Lviv, a cultura, a tradição, a religião e até a democracia ganham uma importância difícil de imaginar num país que está em guerra há mais de um ano. A bandeira da União Europeia voa nas janelas e, imagine-se só, pode-se pagar em euros na maior parte dos estabelecimentos. As pessoas, simpáticas, falam inglês fluentemente e, quando não sabem, arranjam forma de se fazerem entender. Este tipo de atitude choca frontalmente com o estereótipo, afinal e ao contrário do que imaginava, há uma abertura enorme aos turistas e estrangeiros.

Campanha de promoção turística da cidade de Lviv. // Foto: Bárbara Sousa

São visíveis e até mesmo palpáveis os contrastes e as bipolaridades do mesmo país: o oeste que pede e que se manifesta pela aproximação à Europa, como aconteceu na onda de protestos que invadiu a Praça da Independência em Kiev, durante três meses entre o final de 2013 e fevereiro de 2014. E o leste onde, em março do mesmo ano, começaram os primeiros conflitos armados entre o governo e os separatistas ucranianos pró-russos, que defendem um alinhamento com a Rússia. Mais de 1200 quilómetros separam Lviv de Donetsk (um dos pontos onde os conflitos mais se intensificaram), tão diferentes, mas tão iguais: unidos num só Estado.

Mapa da crise ucraniana. // Criado por Bill Humphrey para Arsenal For Democracy.

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