Entrevista | Yoani Sánchez: ‘Tecnologia é um aliado incrível para o jornalismo independente em Cuba’

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Yoani Sánchez, a blogueira cubana que dirige o 14ymedio, em Cuba./ Foto: IJNet

Você pode conhecer parte da história de Yoani Sánchez, mas a jornalista cubana ainda está trabalhando para seu futuro e o futuro dos meios de comunicação independentes em Cuba.

A vencedora do Prêmio Knight de Jornalismo Internacional fez um nome para si mesma quando começou um blog pessoal em 2007 chamado Generación Y (Geração Y). Os posts detalhados da vida de Yoani na ilha — que abrigava apenas veículos de comunicação estatais — chamaram muita atenção de pessoas fora de Cuba. Mais importante ainda, Yoani trabalhou arduamente para garantir que compatriotas pudessem ler o Generación Y também.

Com ajuda, ela contornou a censura do governo através da distribuição de PDFs de seus posts em drives de USB. Como o acesso à Internet era — e ainda é — limitado em Cuba, os leitores dentro do país conseguiam acessar o Generación Y através de proxies. Para publicar suas mensagens, Yoani tinha que enviar o texto do blog para amigos fora da ilha através de e-mail e tuitar usando Tweetymail e SMS.

Apesar destes obstáculos, Yoani decidiu expandir além de seu blog. Em maio de 2014, ela lançou14ymedio, a primeira plataforma de notícias independente de Cuba, com o apoio de um pequeno grupo de investidores. Embora a maior parte das reportagens do 14ymedio seja feita dentro de Cuba, a startup está registrada na Espanha e tem colaboradores em Madrid, México, Miami e Havana. É publicado em espanhol e Inglês, por isso, os cubanos que deixaram o país quando pequenos — e as futuras gerações — podem aprender mais sobre sua terra natal.

O 14ymedio evita qualquer financiamento de governos ou grupos políticos, e continua a construir um negócio sustentável, com publicidade, parcerias e eventos. Uma campanha de crowdfunding e modelo de associação também estão em andamento.

Para distribuir conteúdo dentro de Cuba, o 14ymedio ainda depende de proxies e thumbdrives, mas também consegue enviar e-mail boletins somente de texto para cerca de 2 milhões de usuários do serviço de e-mail local do país. Além disso, como Cuba e os Estados Unidos começaram a reconstruir os laços, a conectividade com a Internet melhorou ligeiramente. Desde julho de 2015, o governo cubano abriu 35 novos pontos de acesso WiFi, mas muitos sites, incluindo 14ymedio, ainda são censurados. O preço também é um problema: Uma hora de conectividade a estes hotspots custa US$2,50 (CUC2,50).

Essas mudanças “foram como uma gota de água num oceano de necessidade”, disse Yoani para a IJNet.

A mídia cubana continua a ser um mar de jornais administrados pelo governo, TV e estações de rádio. Com o 14ymedio, Yoani pretende forjar um caminho para outros meios de comunicação independentes florescerem em Cuba. Até agora, sua plataforma de notícias continua a ser a única voz independente no país. Quando o Secretário de Estado dos EUA John Kerry visitou Havana, somente o 14ymedio foi convidado para uma conferência de imprensa a portas fechadas.

A IJNet conversou com Yoani sobre como ela treina os jornalistas do 14ymedio e seu conselho para repórteres em ambientes repressivos.

IJNet: Muitos dos jornalistas do 14ymedio não são repórteres treinados. Agora que Cuba tornou-se mais aberta, você ainda emprega estes tipos de jornalistas ou repórteres treinados profissionalmente estão se aproximando de você para trabalhar no 14ymedio?

Yoani Sánchez: Minha experiência com os jornalistas que se formaram a partir do sistema é que eles já estão naquele quadrado de censura.

Tem sido mais fácil para mim treinar jornalistas que não eram jornalistas do que trazer os jornalistas que foram treinados como jornalistas a sair dessa mentalidade de censura.

A ideia de formação é um dos nossos pilares no 14ymedio. Não só a formação para a nossa equipe: o jornalismo independente em Cuba precisa melhorar e profissionalizar. Ele precisa separar a denúncia da informação e o ativismo do jornalismo.

Por muitos anos, na ausência de uma imprensa independente, o jornalista teve de assumir um monte de papéis: O ativista, líder da oposição, o jornalista, a figura política — tudo isso em um balde. O momento é agora começar a diferenciar isso.

IJNet: Que tipos de coisas você está ensinando a pessoas que se juntam ao 14ymedio como jornalistas?

Yoani Sánchez: Em primeiro lugar, a observação. É incrível, porque quando você vive por muitos anos dentro de uma realidade, realmente não vê mais. O que eu estou tentando ensinar é que quando saem na rua, mesmo com toda a experiência que vivem neste país, [vejam Cuba] através dos olhos de alguém que nunca tenha vivido lá.

Eu também estou ensinando-os a não aceitar um “não”. Vivemos em um país onde as instituições e os poderes não são acostumados ​a dar informações aos seus cidadãos. Toda vez que você pergunta sobre estatísticas ou dados sobre o país, a resposta é sempre não. Eu estou ensinando-lhes a não ficarem paralisados e buscar essa informação, apesar do muro de incógnitas. Digo que a tecnologia é um aliado incrível para o jornalismo independente em Cuba.

Acima de tudo, o que eu estou tentando ensinar é que podemos fazer jornalismo sobre os poderosos sem fazer ataques pessoais a indivíduos ou violência verbal.

Desde que estou no mundo do jornalismo digital, também estou ensinando que é melhor dar a notícia tarde do que entregar a notícia de forma incorreta. O jornalismo moderno do dia está sendo prejudicado tremendamente por esta ideia.

Queremos fazer textos que tenham uma vida mais longa e com o qual gastamos mais tempo, mesmo se estamos atualizando menos nossa homepage.

IJNet: Que dicas você daria para jornalistas que trabalham em ambientes repressivas?

Yoani Sánchez: Proteja sua vida privada. Quando você tem alguém trabalhando em um ambiente repressivo, não se trata apenas de repressão e ser mandado para a prisão. Muita dor vai para a família e as pessoas que você ama.

Eu recomendaria também não se deixar ser empurrado pelos poderosos e produzir jornalismo baseado em ressentimento. A maioria desses regimes provoca esta ação, onde o jornalista só está narrando o mau e não deve ser assim. Outra dica importante é não ter nada a esconder: Nem mesmo os programas de criptografia mais sofisticadas podem esconder informações de regimes autoritários, então aprenda a viver em um castelo de vidro, onde podem ver tudo.

Entrevista produzida e publicada originalmente pela IJNet, rede de jornalistas internacionais.

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